quinta-feira, 2 de junho de 2016

A TEMPESTADE


A tempestade


Sou o menino ateu,
você a madre superiora,
você é Franco,
eu a Frente Popular,
você a ditadura,
eu a vanguarda,
você é o deserto,
eu sou a tempestade.


Sou Iansã,
você a Virgem Maria,
eu sou o titã,
você o fantasma,
sou a espada flamejante,
você o escudo de aço negro,
sou bomba-relógio,
você o tempo,
você é a funcionária pública,
eu o bárbaro aventureiro.


Sou meretriz,
você poeta,
sou inculto e belo,
você erudita.


Sou o endividado,
você o cobrador,
sou o sonho,
você o despertador.


Você é o herói da justiça,
eu sou o príncipe dos ladrões,
sou a vingança do povo,
você o carrasco mascarado.


Sou Robespierre,
você Napoleão,
eu a realidade,
você a miragem,
sou o Rei dos Reis,
você é Cristo,
sou vida plena,
você sepultura,
você o atraso,
eu o futuro.


Sou Lampião,
você o xerife,
você o cowboy,
eu o cacique.


Sou um errante filisteu,
você o virtuoso hebreu,
você odeia o pecado,
sou o pecador sem redenção.

sábado, 28 de maio de 2016

A TRADIÇÃO


A Tradição


Verba volant, scripta manent,
indico nesta epístola,
um pouco de nossas práticas,
costumes e ideias que se repetem,
em formas diversificadas,
é também um recado,
que tu verás de mal grado,
mas deves ler preocupado,
pois deves perceber,
nosso imenso poder,
criamos o patriarcado,
a primogenitude,
a propriedade privada,
e também a herança,
neste nosso clã,
somos todos traidores,
mas fiéis à tradição,
nossa fidelidade canina,
é para com a soberba desrazão,
apunhalamos pelas costas,
delatamos o salvador,
não importa quanto dor,
nossa ação causa aos inocentes,
pois os nossos interesses,
tingidos de glória.
a escolha mais óbvia.
dourada resplandecente,
surge espontaneamente.
Meu caro,
é imenso,
todo esse consentimento!

quarta-feira, 25 de maio de 2016

DRAGÕES DO VIL METAL


Em grandes cavernas,
em castelos abandonados,
em amplos salões,
de tetos abobadados,
escamas avermelhadas,
do sangue de suas vítimas,
usam da força bruta
dispensam as artes místicas.


Dragões do vil metal,
por muito tempo construíram,
(enquanto a paz destruíam)
um brilhante cabedal.


Porém,
aparenta a cobiça,
ser então infinita,
cai flamejante,
a fúria retumbante.


Jaz o velho bosque,
outrora verdejante,
em brasas retorcidas,
travessias e vilas,
em pó ou ruínas,
assim se faz a sina,
deste tal legado,
quiçá consumado,
deixar tudo revirado,
em desventura desolado.


Chora então o profeta,
ademais agoureiro,
sua vitória mais cinza,
o dito certeiro.


Feito verso e prosa,
nos lares replicado,
sacrifício delicado,
renúncia duvidosa:
casto relicário,
avulta graciosa,
feito voluntário
desvanecem convalidas
em prol das feras ditas.


Das terras nobre senhor,
sob guarda decidida,
pois alma tão sofrida,
acalenta velha dor,
cada homem assim se faz,
cavaleiro contumaz,
pois de tal juízo,
faz-se o final,
e sem muito siso,
e mais recear,
pois então aumentar,
a carga o tributo,
e sem muito luto,
ao ser entregar,
e ratear diminuto,
vasto salvo-conduto.


Cisma incessante,
el rei hesitante,
não surge o bem-dito,
ecoa sibilante,
e ainda ululante,
das terras do aflito,
assim se faz do grito,
ademais veredito.


Dragões do vil metal,
apesar das oferendas,
desfaz-se o acordo,
ignora-se o trato,
faz por agrado,
o inverso do belo,
caos e flagelo.


Entre os homens,
traição e desistência,
mas nunca cessa e mais avança,
mistério e aliança,
luta e resistência.

domingo, 1 de maio de 2016

VERTIGEM


VERTIGEM



Dos ouvidos e olhos,
o coração e a mente,
deveras exigem,
esconder febrilmente,
a louca vertigem,
o cair plenamente.


O coração e a mente,
querem taticamente,
mas é desesperadamente,
tal qual escuro palco,
do vermelho teatro bélico,
desconhecer o mefistofélico,
desfazer ilusoriamente,
o truque maquiavélico.


Afastar intensamente,
a lebre soturna decadente,
a paixão ardente,
ainda é desejo da mente.


Não desejo ver,
prateada velozmente,
voadora, a raposa,
a paz desprover.


Os ratos tudo tentam,
e tenazmente ostentam,
o total desencanto,
gerando o mal pranto,
destruir usando hordas,
alcateias sarcásticas,
togadas... midiáticas.


Antes,
bem dormir preciso,
antes do mal incisivo,
do tipo ruim corrosivo,
bela, recatada e letal,
jovem e boa esposa, fatal,
exortada cabalmente,
pelo querido mais crente,
acionado tragicamente,
lançando-me sem proteção,
na mais eterna escuridão.


quinta-feira, 14 de abril de 2016

SAUDADES DO JOAQUIM



Joaquim,
cativos eram seus antepassados,
comprados, acossados,
pelo ex-pirata Barba-Ruiva,
tornou-se da Casa-Grande,
servo leal afamado.


Capataz brutal,
de nome Gilmar,
a glória capital,
de forma viril
com ele disputava.

Joaquim sente saudade,
de quando era lembrado.
Disputar espaço,
com Zé beato,
velho ladino,
agora é seu destino,
com augusta fé
em notas de rodapé.

Por outro servo,
cuja aparência e conduta
aos patrões agrada mais,
fora trocado,
pois se quer astuta,
as velhas criaturas.

O que é pestilento,
estes comensais,
de perigosos umbrais,
invocam terrivelmente.

Também de vil forma,
encarnam loucamente,
o desejo inconsequente,
dos grandes bacanais.

sábado, 12 de março de 2016

A BRUXA. O terror da opressão religiosa.

(Aviso: spoiler). A história, a tensão e o cenário do filme lembrou-me muito o filme Anticristo, de Lars von Trier. No filme Anticristo, a personagem feminina se convence de que a natureza e o feminino são elementos cruéis. O fim do filme de Lars von Trier indica que a natureza também tem seu lado protetor. No filme A Bruxa, sentimos a tensão gerada pela opressão dos desejos, sentimentos e instintos humanos. Quando a jovem aceita o demônio e junta-se às bruxas, a tensão e a opressão desaparecem. A jovem respira aliviada e serenamente. As mulheres a levitar indicam a leveza em contraposição à tensão e opressão religiosa.

Algumas questões ou mistérios parecem não ter respostas.  Como o bebê foi raptado? Existiam bruxas próximas ou era sonhos ou pesadelos dos personagens? O marido era subserviente à esposa, nutria por ela excessiva cautela ou se tornava frágil ao entrar em contradição entre salvar a família da fome e demonstrar ser um homem bom, corajoso e honesto? Parece-me que o marido culpa-se pelo fato de sua família ter sido expulsa do vilarejo e que ele tem uma origem mais humilde.

O fanatismo religioso costuma unir as pessoas, no entanto, o orgulho e fanatismo religioso do marido levou sua família ao isolamento. Talvez desejasse fundar no futuro uma nova comunidade e se tornar um líder religioso, mas uma série de infortúnios indicava que a crença no deus provedor devia ser revista. A tentação de revisar, de diminuir ou afastar a crença é vista pelo casal como obra do demônio. 

A jovem do filme A Bruxa e a viúva do filme Babadook aceitam a convivência com o monstro ou com o demônio, aceitam e compreendem parte da força de seus próprios desejos e anseios, ou seja, obtêm-se algo libertador, superam a excessiva opressão que aprisionava, sufocava e escondia seus sentimentos e instintos.

sábado, 9 de agosto de 2014

Sob o Sangue dos Hereges


Abelardo é um combatente português que foi designado para proteger missionários no interior do Brasil no século XVI, durante o reinado de Dom Sebastião. O texto é escrito em primeira pessoa pelo personagem Abelardo e destina-se a seu amigo sacerdote que vive em Évora. Para proteger os jesuítas, Abelardo deve enfrentar inclusive forças diabólicas e inquietações espirituais. A situação, já tensa, fica ainda mais complicada com a chegada de místicos europeus.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Cristianismo, política e utopias



O entendimento (por parte de Ernst Bloch) do potencial revolucionário existente na Bíblia e do caráter eminentemente político do Evangelho - calcados na esperança - foi bem acolhido pelos teólogos Jürgen Moltmann, Johann Baptist Metz, Gustavo Gutiérrez e Leonardo Boff. 

Foi a partir destas discussões teológicas europeias - mais especialmente alemãs - suscitadas pelo pensamento blochiano que dois teólogos latino-americanos fundamentaram a teologia da libertação em 1971. Um olhar sensível, católico e "marginal" latino-americano e um agir solidário em meio à miséria e injustiça ganharam, portanto, fortes estruturas e legitimações a partir da teologia da esperana, da nova teologia politica e do pensamento blochiano.

Apoiando-se em Marx, em Ernst Bloch e em Moltmann, o pensador peruano também buscou superar a tradicional separação entre teoria e práxis. Portanto, a teologia da libertação devepartir da prática e ser comprovada e validade na práxis. Partindo de Bloch e Moltmann, Gutiérrez iluminou a força da esperança dos pobres e marginalizados contida na Bíblia. Nesse sentido, o povo oprimido latino-americano mostra-se como um dos principais detentores de uma ativa e inquieta esperança cristã.


Trechos retirados do livro Utopias Esquecidas. Origens da Teologia da Libertação.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A esperança ernst-blochiana e a esperança bergoglio-franciscana


A esperança ernst-blochiana e a esperança bergoglio-franciscana


           Sobre a polêmica suscitada pela primeira exortação apostólica do Papa Francisco, ouso dizer que houve sim o impacto do pensamento marxista, e vejo isso de forma positiva. Por outro lado, foi um impacto indireto e de uma determinada corrente marxista, mais especialmente do marxismo de Ernst Bloch. Para compreender melhor, reproduzo abaixo alguns trechos de outro texto meu (Utopias esquecidas).

“... o que Münster quer sugerir também é que há pontos de contatos entre expressionismo, messianismo e marxismo. A sinergia entre três elementos é uma das marcas principais do materialismo de Bloch. A emotividade, a revolta, os desejos, as esperanças e utopias encontram um terreno mais sóbrio dentro do marxismo para se desenvolverem”.

“Para Bloch, há na Bíblia um potencial subversivo. Uma leitura profunda e crítica do texto bíblico confirmariam que a história do mundo e a história da salvação formam uma única história e o que o reino prometido não é apenas espiritual, mas também terreno. O Êxodo pode ser compreendido não como uma fuga geográfica, mas como modelo de superação de um estado de injustiça – nesse sentido, há uma grande consonância entre a Bíblia e movimentos populares contra a ordem.”

O entendimento do potencial revolucionário existente na Bíblia e do caráter eminentemente político do evangelho – calcados na esperança – foi bem acolhido pelos teólogos Jürgen Moltmann, Johann Baptist Metz, Gustavo Gutiérrez e Leonardo Boff”.

Abaixo, alguns trechos da primeira exortação apostólica de Francisco:

Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo”.

“A verdadeira esperança cristã, que procura o Reino escatológico, gera sempre história”.

“Acreditamos no Evangelho que diz que o Reino de Deus já está presente no mundo, e vai-se desenvolvendo aqui e além de várias maneiras.”

“Os cidadãos vivem em tensão entre a conjuntura do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que nos abre ao futuro como causa final que atrai.”

A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais”.

“É perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do sofisma. Por isso, há que postular um terceiro princípio: a realidade é superior à ideia. Isto supõe evitar várias formas de ocultar a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projectos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria.”

Este último trecho me fez lembrar de uma descrição sobre Ernst Bloch feita pela filosofa Suzana Albornoz:

“Bloch é um construtor de catedrais que pode pertencer melhor à maçonaria dos utopistas do que ao concilio dos pontífices das igrejas filosóficas da modernidade – cuja fé é o relativismo, cujo deus é o nada, cuja moral é a critica ao conhecimento, cuja práxis é a analise da linguagem”.

Outros trechos do texto de Francisco me fizeram lembrar de Metz (da questão da lembrança e da missão); de Moltmann (da questão da esperança); de Paulo Freire (do possível viável e as situações limites); de Pannenberg (da questão da história) e de Bloch (das questões da utopia, esperança e do Reino de Deus no mundo).

Veja a diferença com relação à Bento XVI, que usa o termo utopia com valor negativo:

“... é necessária a Palavra que comunique aquilo que o próprio Senhor nos disse; por outro, é indispensável dar, com o testemunho, credibilidade a esta Palavra, para que não apareça como uma bela filosofia ou utopia, mas antes como uma realidade que se pode viver e que faz viver.” (Verbum Domini).

“Amadurecida durante toda a história da Igreja, esta doutrina (Social da Igreja) caracteriza-se pelo seu realismo e equilíbrio, ajudando assim a evitar promessas enganadoras ou vãs utopias.” (Sacramentum caritatis).

“A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias.” (Caritas in veritate).

Abaixo, Bento XVI refuta tanto o Reino como existente no além quanto como existente em um futuro terreno. Para ele, o verdadeiro Reino é possível de se alcançar no íntimo de cada um. Portanto, o caminho para o Reino e o próprio Reino é individual e não coletivo. Ao homem não cabe a construção do Reino terreno - apenas devemos rezar e esperar.

“O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança.” (Spe Salvi).

“Certamente, não podemos « construir » o reino de Deus com as nossas forças; o que construímos permanece sempre reino do homem com todos os limites próprios da natureza humana.” (Spe Salvi).

Percebe-se então que a saída de Bento XVI e a entrada de Francisco no Vaticano foi uma guinada à esquerda. Espero ansiosamente os novos textos de Bergoglio, pois “o que se sonhava e aspirava ontem, precisa existir amanhã, e esta saudade, não conseguiram abafá-la as trevas da opressão, de modo que, por trás do deserto, aguarda Canaã ao viajante, adornada em inédito esplendor” (Ernst Bloch).


Daniel M. Vilela

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Morus e Campanella: Utopia e Cidade do Sol.


No século XVI, Thomas Morus publicou seu projeto utópico, porém descolado da esperança cristã no reino de mil anos. No livro Utopia, o marinheiro Rafael relata a sociedade igualitária, livre e prazerosa que conheceu em uma de suas viagens. Por um lado, não há o milenarismo ou o quiliasmo, por outro, há a indicação de um mundo melhor e possível de ser construída por mãos humanas.

Campanella, no início do século XVII, desenvolveu sua utopia – a Cidade do Sol –, baseada na ordem e na astrologia. Não há propriedade privada e trabalha se quatro horas por dia, mas tudo é regido pelos astros. O bem estar de todos depende de orientar-se corretamente pelos movimentos dos corpos celestes.

Ambos, Morus e Campanella, afastaram-se do quiliasmo e aproximaram-se da sociedade racional idealizada por Platão. No entanto, enquanto Thomaz Morus baseou-se em relatos do comunismo primitivo ameríndio, Campanella parece ter baseado sua utopia no Império Asteca. Para o historiador Lewis Munford, a Cidade do Sol uniu a República de Platão com o Império de Montezuma.

              O desejo por igualdade na Utopia de Morus alimentou-se também do pensamento burguês, ainda incipiente e que buscava a diminuição das desigualdades entre nobres e plebeus. O desejo por ordem social de Campanella, por sua vez, alimentou-se do processo de centralização absolutista e com o avanço da manufatura, organizada de forma ampla e unificadora.

Trecho retirado do livro Utopias Esquecidas.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Angélico Sândalo Bernardino e o clero católico progressista de Ribeirão Preto.

Angélico Sândalo Bernardino no programa Roda Viva da TV Cultura.
A conduta esquerdista não radical, moderada, de Angélico Bernardino - atualmente bispo emérito de Blumenau -, conciliou-se bem com o governo de João Goulart e concilia-se bem o governo petista. Meu trabalho de conclusão de curso, finalizado em 2004, debruçou-se sobre o clero católico progressista da região de Ribeirão Preto, SP. Acerca de Bernardino e de seu grupo eu havia escrito o que segue:

Em 1952, Dom Luis se tornou bispo de Ribeirão Preto, SP. Dessa vez, Dom Luis Mousinho entrou em contato com uma região mais rica materialmente, mas também com péssimas condições de trabalho e pobreza no campo. Ele pregava a atualização do clero e a reflexão sobre os problemas socioeconômicos. Sob sua administração, e orientado por ele, surgiu um grupo de sacerdotes progressistas em Ribeirão Preto, no qual se destacaram: padre Celso Ibson de Sylos, padre Angélico Sândalo Bernardino[1], Dom David Picão, frei Antonio Rolim, além de seminaristas como Francisco de Assis Correia. Esse grupo se baseava na Doutrina Social da Igreja, reestruturada pelo Papa João XXIII, e nas novas correntes progressistas católicas da Europa, principalmente nas idéias de padre Lebret.

...

Padre Celso Ibson de Sylos foi convidado por Dom Mousinho a fazer um curso em Roma sobre problemas sociais. Permaneceu na Europa de agosto de 1960 a dezembro de 1961. No seu lugar, como diretor do jornal Diário de Notícias, ficou o padre Angélico Bernardino, que comentou por meio do jornal os principais acontecimentos da época, como por exemplo: vitória e renúncia de Jânio Quadros; e os impasses relativos à posse de João Goulart. Como padre progressista - democrata, antiliberal e contrario ao autoritarismo -, Bernardino defendeu a legalidade contra um possível golpe militar que impediria a posse de João Goulart; demonstrou um certo receio consoante com as vozes conservadoras com a figura do novo presidente; e um medo em relação a uma possível guerra civil:

...opinam que Goulart, com razão ou não, devia renunciar no cargo de vice-presidente. Deste modo, seria apaziguada a família brasileira. Não teríamos revolução, nem mortes de jovens mais futurosos. O Brasil poderá caminhar sem ódios e sem mortes. Um gesto patriótico de Goulart diante da tragédia que poderá ter conseqüências imprevisíveis, reconduziria o Brasil à paz.[1]

...Defendemos, com todas as forças da legalidade do amor a Constituição mesmo que isto nos traga como conseqüência, o Presidente João Goulart. Não importa o fruto. A nós a honra de nos batermos pela justiça...[2]

 ...Acreditamos até que, coadjuvado por um bom Conselho de Ministros, êsse homem medíocre sobre o qual se fazem os comentários mais comprometedores, possa realizar um Governo. É o que pedimos a Deus.[3]

Padre Celso retornou no início de 1962 e voltou a ser o diretor do Diário de Notícias. Teve uma postura mais progressista que Angélico Bernardino. Nesse ano, criticou todos aqueles que se opunham à “marcha da socialização do capital”. Contra uma manifestação da Associação Comercial do Rio de Janeiro pedindo às “classes produtoras” pequenos sacrifícios para ajudar a controlar a inflação, padre Celso respondeu:
Nós entendemos que a hora não é para pequenos sacrifícios, não. O momento é para se partir para em definitivo ao encontro das soluções apontadas claramente pela Doutrina Social Cristã. Não se pode mais omitir na marcha da socialização tranqüila, progressiva e firme dos capitais. Urge a democratização do capital. Urge a implantação da primazia do trabalho sobre o capital.
Não nos parece que essa solução cristã custa apenas “pequenos sacrifícios” às classes denominadas produtoras.[4]

...

A manchete do 31 de março era: “Minas se Levantou para um Golpe” e o editorial escrito por padre Celso atacava esse levante. Nesse dia, padre Celso, após a ousadia de elaborar um editorial tão subversivo para aqueles dias, escondeu-se na casa de Antonio Duarte Nogueira. No dia seguinte, fugiu para o Rio de Janeiro, escondendo-se sob a sombra de D. Helder Câmara.

O Golpe Militar de 1964, logo em seguida, afastou o tom esquerdista radical do jornal. Nos dias seguintes, o Diário de Notícias esteve em consonância com a política dos militares, a primeira página do jornal do dia 9 de maio trazia uma exaltação ao golpe e à  “Marcha da Família com Deus, pela Liberdade” ocorrida em Ribeirão Preto:

A tarde de quarta feira colheu a população leal  a uma grande demonstração de civismo dando expansão ao vitorioso movimento das forças armadas garantidor da democracia brasileira. A Marcha da Família com Deus, pela Liberdade reuniu multidão calculada entre quarenta a cinqüenta mil pessoas, representadas por homens, mulheres e crianças de todas os escalões sociais e profissionais. O desfile, iniciado em diversos pontos da cidade atingiu o seu ponto culminante com a concentração da grande massa humana na Esplanada da Praça XV de Novembro, onde um comício com diversos oradores traduziu a manifestação de Ribeirão Preto na sua fidelidade ao mesmo e na sua confiança no governo agora empenhado em levar a tranqüilidade a todos os pontos do Brasil. Dessa, memorável jornada patriótica é este expressivo flagrante, testemunha da presença de Ribeirão preto à Marcha da Família com Deus, pela Liberdade.[1]

No dia 12 de maio, o Diário de Notícias transmitia o julgamento de Papa Paulo VI em relação ao Golpe ocorrido no Brasil. Apesar de pedir soluções para as desigualdades sociais do Brasil, houve por parte do Papa Paulo VI, um apoio aos militares:

Os dirigentes do Brasil devem satisfazer às legitimas exigências das classes trabalhadoras e empreender necessárias reformas, se desejam que a Nação evite o perigo e a triste experiência do Comunismo. Estou satisfeito por não ter o Brasil derramado sangue na revolução. Agora, chegou a hora da ação. Os problemas do Brasil são gigantescos, e para eles deve-se procurar solução com toda a urgência.[2] 

Padre Celso ficou um mês em Petrópolis até que recebeu uma intimação por meio de uma carta de D. Agnelo para que voltasse a Ribeirão Preto. Quando voltou, D. Agnelo comunicou-o de que as autoridades decidiram que ele ficaria preso no palácio episcopal ou no mosteiro. Padre Celso recusou-se e ficou preso um mês no quartel. Frente às indagações da sociedade, alguns jornais de Ribeirão Preto publicaram uma declaração sobre a prisão do padre feita pelo “triunvirato” – aqueles que administraram a cidade após o golpe: o chefe regional de polícia, o comandante da Policia Militar e o Coronel do Exercito da Cidade. Os argumentos eram: organização da greve da indústria Matarazzo e invasão de fazendas.[3]

Celso Ibson de Sylos disse ter recebido a visita de D. Agnelo na prisão. Segundo Celso, D. Agnelo estava apavorado e angustiado, pois a prisão de padre Celso havia dividido as “ovelhas”. Padre Celso, então, prometeu a ele, sair de Ribeirão Preto quando solto.[4] De fato, em 1981, na Catedral de Ribeirão Preto, D. Agnelo, em uma homilia, disse que o período em que foi arcebispo dessa cidade foi o período mais sofrível de sua vida.

 Se em alguma parte devo excusar-me é precisamente em Ribeirão Preto onde, permiti-me (sic) o desabafo, também mais sofri em minha vida, apesar da sinceridade e disposição de executar meu lema episcopal: “Opportet Illum regnare”= “É necessário que Cristo reine”.[5]

Solto, padre Celso foi para o Rio de Janeiro, regressando para Ribeirão Preto quando D. Agnelo se tornou arcebispo de São Paulo em 1965. No entanto, o então arcebispo de Ribeirão Preto, D. Frei Felício César da Cunha Vasconcelos, pediu para que padre Celso não fizesse militância política. Celso, então, tentou buscar um espaço para fazer sua política nas arquidioceses do Salvador e Goiânia, mas houve receio dos arcebispos. Nesse contexto, Celso Ibson de Sylos pediu seu desligamento do Clero e se tornou vereador de Ribeirão Preto em 1967 pelo MDB.

Quanto a D. Agnelo, ele se tornou arcebispo de São Paulo em 1965. Em 1969 ele se tornou cardeal em Roma. O padre Angélico Sândalo Bernardino continuou em Ribeirão Preto e fez militância política por meio do Diário de Notícias após a saída de D. Agnelo de Ribeirão Preto. A organização dos trabalhadores rurais na região também continuou, não obstante a opressão e a observação do governo militar. Celso Ibson de Sylos continuou a ajudá-los no final da década de 60 e durante a década de 70 atuando como assessor.



[1] Marcha da Família com Deus, pela Liberdade. Diário de Notícias. 09 maio 1964. p. 1. 
[2] O Papa nos Falou. Diário de Notícias. coluna Nosso Comentário. 12 maio 1964. p. 2.
[3] Depoimento de Padre Celso Ibson de Sylos no dia 04.08.1990 ao Projeto “História do Movimento Operário e Sindical”, desenvolvido pelo Museu Histórico e Pedagógico de Batatais “Washington Luís”. Fita VHS.
[4] Ibidem.
[5] ROSSI, D. Agnelo. Apud CORREIA, Padre Francisco de Assis de. História da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Franca: Editora Santa Rita, 1983. p. 70 – 71. 

...

Contra o Clero Progressista, o conservador Dom Agnelo Rossi tentou obstruir o trabalho de conscientização política feita pelo jornal Diário de Notícias, reestruturando esse jornal. E após o Golpe, os militares prenderam padre Celso por seu envolvimento com os trabalhadores, tanto rural quanto urbano. 

No entanto, o engajamento político católico esquerdizante junto às camadas populares continuou em Ribeirão Preto nos primeiros anos do regime militar, não obstante a opressão e a observação dos militares. Angélico Sândalo Bernardino, à frente do Diário de Notícias, chamava a atenção para os problemas sociais e econômicos; e Celso Ibson de Sylos, desligado do Clero Católico, tornou-se vereador em Ribeirão Preto e assessor junto aos trabalhadores rurais organizados.

Padre Celso, assim como a JUC, situou-se no oposto da esquerda católica transigente com a alta hierarquia da Igreja, de maioria conservadora. Dessa forma, padre Celso atuou de forma radical, próximo à “atuação-limite” do padre colombiano Camillo Torres, que pediu redução ao estado leigo, se juntou aos guerrilheiros, se tornou procurado pela policia e foi morto em 1966.[1]



[1] MENDES, Candido. Memento dos Vivos. A Esquerda Católica no Brasil. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1966. p. 22.


[1] BERNARDINO, Padre Angélico Sândalo. Opiniões. Diário de Notícias. coluna Nosso Comentário, 30 agos. 1961. p. 2.
[2] BERNARDINO, Padre Angélico Sândalo. O Povo quer Legalidade. Diário de Notícias. coluna Nosso Comentário, 02 set. 1961. p. 2.
[3] BERNARDINO, Padre Angélico Sândalo. Pausa para Pensar. Diário de Notícias. coluna Nosso Comentário, 05 set. 1961. p. 2.
[4] SYLOS, Padre Celso Ibson de. A Solução é a Socialização. Diário de Noticias. Coluna Nosso Comentário. 05 out. 1962. p. 2.



[1] Atualmente, Angélico Sândalo Bernardino é Bispo de Blumenau.