quinta-feira, 14 de abril de 2016

SAUDADES DO JOAQUIM



Joaquim,
cativos eram seus antepassados,
comprados, acossados,
pelo ex-pirata Barba-Ruiva,
tornou-se da Casa-Grande,
servo leal afamado.


Capataz brutal,
de nome Gilmar,
a glória capital,
de forma viril
com ele disputava.

Joaquim sente saudade,
de quando era lembrado.
Disputar espaço,
com Zé beato,
velho ladino,
agora é seu destino,
com augusta fé
em notas de rodapé.

Por outro servo,
cuja aparência e conduta
aos patrões agrada mais,
fora trocado,
pois se quer astuta,
as velhas criaturas.

O que é pestilento,
estes comensais,
de perigosos umbrais,
invocam terrivelmente.

Também de vil forma,
encarnam loucamente,
o desejo inconsequente,
dos grandes bacanais.

sábado, 12 de março de 2016

A BRUXA. O terror da opressão religiosa.

(Aviso: spoiler). A história, a tensão e o cenário do filme lembrou-me muito o filme Anticristo, de Lars von Trier. No filme Anticristo, a personagem feminina se convence de que a natureza e o feminino são elementos cruéis. O fim do filme de Lars von Trier indica que a natureza também tem seu lado protetor. No filme A Bruxa, sentimos a tensão gerada pela opressão dos desejos, sentimentos e instintos humanos. Quando a jovem aceita o demônio e junta-se às bruxas, a tensão e a opressão desaparecem. A jovem respira aliviada e serenamente. As mulheres a levitar indicam a leveza em contraposição à tensão e opressão religiosa.

Algumas questões ou mistérios parecem não ter respostas.  Como o bebê foi raptado? Existiam bruxas próximas ou era sonhos ou pesadelos dos personagens? O marido era subserviente à esposa, nutria por ela excessiva cautela ou se tornava frágil ao entrar em contradição entre salvar a família da fome e demonstrar ser um homem bom, corajoso e honesto? Parece-me que o marido culpa-se pelo fato de sua família ter sido expulsa do vilarejo e que ele tem uma origem mais humilde.

O fanatismo religioso costuma unir as pessoas, no entanto, o orgulho e fanatismo religioso do marido levou sua família ao isolamento. Talvez desejasse fundar no futuro uma nova comunidade e se tornar um líder religioso, mas uma série de infortúnios indicava que a crença no deus provedor devia ser revista. A tentação de revisar, de diminuir ou afastar a crença é vista pelo casal como obra do demônio. 

A jovem do filme A Bruxa e a viúva do filme Babadook aceitam a convivência com o monstro ou com o demônio, aceitam e compreendem parte da força de seus próprios desejos e anseios, ou seja, obtêm-se algo libertador, superam a excessiva opressão que aprisionava, sufocava e escondia seus sentimentos e instintos.

sábado, 9 de agosto de 2014

Sob o Sangue dos Hereges


Abelardo é um combatente português que foi designado para proteger missionários no interior do Brasil no século XVI, durante o reinado de Dom Sebastião. O texto é escrito em primeira pessoa pelo personagem Abelardo e destina-se a seu amigo sacerdote que vive em Évora. Para proteger os jesuítas, Abelardo deve enfrentar inclusive forças diabólicas e inquietações espirituais. A situação, já tensa, fica ainda mais complicada com a chegada de místicos europeus.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Cristianismo, política e utopias



O entendimento (por parte de Ernst Bloch) do potencial revolucionário existente na Bíblia e do caráter eminentemente político do Evangelho - calcados na esperança - foi bem acolhido pelos teólogos Jürgen Moltmann, Johann Baptist Metz, Gustavo Gutiérrez e Leonardo Boff. 

Foi a partir destas discussões teológicas europeias - mais especialmente alemãs - suscitadas pelo pensamento blochiano que dois teólogos latino-americanos fundamentaram a teologia da libertação em 1971. Um olhar sensível, católico e "marginal" latino-americano e um agir solidário em meio à miséria e injustiça ganharam, portanto, fortes estruturas e legitimações a partir da teologia da esperana, da nova teologia politica e do pensamento blochiano.

Apoiando-se em Marx, em Ernst Bloch e em Moltmann, o pensador peruano também buscou superar a tradicional separação entre teoria e práxis. Portanto, a teologia da libertação devepartir da prática e ser comprovada e validade na práxis. Partindo de Bloch e Moltmann, Gutiérrez iluminou a força da esperança dos pobres e marginalizados contida na Bíblia. Nesse sentido, o povo oprimido latino-americano mostra-se como um dos principais detentores de uma ativa e inquieta esperança cristã.


Trechos retirados do livro Utopias Esquecidas. Origens da Teologia da Libertação.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A esperança ernst-blochiana e a esperança bergoglio-franciscana


A esperança ernst-blochiana e a esperança bergoglio-franciscana


           Sobre a polêmica suscitada pela primeira exortação apostólica do Papa Francisco, ouso dizer que houve sim o impacto do pensamento marxista, e vejo isso de forma positiva. Por outro lado, foi um impacto indireto e de uma determinada corrente marxista, mais especialmente do marxismo de Ernst Bloch. Para compreender melhor, reproduzo abaixo alguns trechos de outro texto meu (Utopias esquecidas).

“... o que Münster quer sugerir também é que há pontos de contatos entre expressionismo, messianismo e marxismo. A sinergia entre três elementos é uma das marcas principais do materialismo de Bloch. A emotividade, a revolta, os desejos, as esperanças e utopias encontram um terreno mais sóbrio dentro do marxismo para se desenvolverem”.

“Para Bloch, há na Bíblia um potencial subversivo. Uma leitura profunda e crítica do texto bíblico confirmariam que a história do mundo e a história da salvação formam uma única história e o que o reino prometido não é apenas espiritual, mas também terreno. O Êxodo pode ser compreendido não como uma fuga geográfica, mas como modelo de superação de um estado de injustiça – nesse sentido, há uma grande consonância entre a Bíblia e movimentos populares contra a ordem.”

O entendimento do potencial revolucionário existente na Bíblia e do caráter eminentemente político do evangelho – calcados na esperança – foi bem acolhido pelos teólogos Jürgen Moltmann, Johann Baptist Metz, Gustavo Gutiérrez e Leonardo Boff”.

Abaixo, alguns trechos da primeira exortação apostólica de Francisco:

Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo”.

“A verdadeira esperança cristã, que procura o Reino escatológico, gera sempre história”.

“Acreditamos no Evangelho que diz que o Reino de Deus já está presente no mundo, e vai-se desenvolvendo aqui e além de várias maneiras.”

“Os cidadãos vivem em tensão entre a conjuntura do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que nos abre ao futuro como causa final que atrai.”

A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais”.

“É perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do sofisma. Por isso, há que postular um terceiro princípio: a realidade é superior à ideia. Isto supõe evitar várias formas de ocultar a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projectos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria.”

Este último trecho me fez lembrar de uma descrição sobre Ernst Bloch feita pela filosofa Suzana Albornoz:

“Bloch é um construtor de catedrais que pode pertencer melhor à maçonaria dos utopistas do que ao concilio dos pontífices das igrejas filosóficas da modernidade – cuja fé é o relativismo, cujo deus é o nada, cuja moral é a critica ao conhecimento, cuja práxis é a analise da linguagem”.

Outros trechos do texto de Francisco me fizeram lembrar de Metz (da questão da lembrança e da missão); de Moltmann (da questão da esperança); de Paulo Freire (do possível viável e as situações limites); de Pannenberg (da questão da história) e de Bloch (das questões da utopia, esperança e do Reino de Deus no mundo).

Veja a diferença com relação à Bento XVI, que usa o termo utopia com valor negativo:

“... é necessária a Palavra que comunique aquilo que o próprio Senhor nos disse; por outro, é indispensável dar, com o testemunho, credibilidade a esta Palavra, para que não apareça como uma bela filosofia ou utopia, mas antes como uma realidade que se pode viver e que faz viver.” (Verbum Domini).

“Amadurecida durante toda a história da Igreja, esta doutrina (Social da Igreja) caracteriza-se pelo seu realismo e equilíbrio, ajudando assim a evitar promessas enganadoras ou vãs utopias.” (Sacramentum caritatis).

“A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias.” (Caritas in veritate).

Abaixo, Bento XVI refuta tanto o Reino como existente no além quanto como existente em um futuro terreno. Para ele, o verdadeiro Reino é possível de se alcançar no íntimo de cada um. Portanto, o caminho para o Reino e o próprio Reino é individual e não coletivo. Ao homem não cabe a construção do Reino terreno - apenas devemos rezar e esperar.

“O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança.” (Spe Salvi).

“Certamente, não podemos « construir » o reino de Deus com as nossas forças; o que construímos permanece sempre reino do homem com todos os limites próprios da natureza humana.” (Spe Salvi).

Percebe-se então que a saída de Bento XVI e a entrada de Francisco no Vaticano foi uma guinada à esquerda. Espero ansiosamente os novos textos de Bergoglio, pois “o que se sonhava e aspirava ontem, precisa existir amanhã, e esta saudade, não conseguiram abafá-la as trevas da opressão, de modo que, por trás do deserto, aguarda Canaã ao viajante, adornada em inédito esplendor” (Ernst Bloch).


Daniel M. Vilela

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Morus e Campanella: Utopia e Cidade do Sol.


No século XVI, Thomas Morus publicou seu projeto utópico, porém descolado da esperança cristã no reino de mil anos. No livro Utopia, o marinheiro Rafael relata a sociedade igualitária, livre e prazerosa que conheceu em uma de suas viagens. Por um lado, não há o milenarismo ou o quiliasmo, por outro, há a indicação de um mundo melhor e possível de ser construída por mãos humanas.

Campanella, no início do século XVII, desenvolveu sua utopia – a Cidade do Sol –, baseada na ordem e na astrologia. Não há propriedade privada e trabalha se quatro horas por dia, mas tudo é regido pelos astros. O bem estar de todos depende de orientar-se corretamente pelos movimentos dos corpos celestes.

Ambos, Morus e Campanella, afastaram-se do quiliasmo e aproximaram-se da sociedade racional idealizada por Platão. No entanto, enquanto Thomaz Morus baseou-se em relatos do comunismo primitivo ameríndio, Campanella parece ter baseado sua utopia no Império Asteca. Para o historiador Lewis Munford, a Cidade do Sol uniu a República de Platão com o Império de Montezuma.

              O desejo por igualdade na Utopia de Morus alimentou-se também do pensamento burguês, ainda incipiente e que buscava a diminuição das desigualdades entre nobres e plebeus. O desejo por ordem social de Campanella, por sua vez, alimentou-se do processo de centralização absolutista e com o avanço da manufatura, organizada de forma ampla e unificadora.

Trecho retirado do livro Utopias Esquecidas.