quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Morus e Campanella: Utopia e Cidade do Sol.
No século XVI, Thomas Morus publicou seu projeto
utópico, porém descolado da esperança cristã no reino de mil anos. No livro Utopia, o marinheiro Rafael relata a
sociedade igualitária, livre e prazerosa que conheceu em uma de suas viagens.
Por um lado, não há o milenarismo ou o quiliasmo, por outro, há a indicação de
um mundo melhor e possível de ser construída por mãos humanas.
Campanella, no início do século XVII, desenvolveu sua
utopia – a Cidade do Sol –, baseada na ordem e na astrologia. Não há
propriedade privada e trabalha se quatro horas por dia, mas tudo é regido pelos
astros. O bem estar de todos depende de orientar-se corretamente pelos
movimentos dos corpos celestes.
Ambos, Morus e Campanella, afastaram-se do quiliasmo e
aproximaram-se da sociedade racional idealizada por Platão. No entanto,
enquanto Thomaz Morus baseou-se em relatos do comunismo primitivo ameríndio,
Campanella parece ter baseado sua utopia no Império Asteca. Para o historiador
Lewis Munford, a Cidade do Sol uniu a República de Platão com o Império de
Montezuma.
Trecho retirado do livro Utopias Esquecidas.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Angélico Sândalo Bernardino e o clero católico progressista de Ribeirão Preto.
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| Angélico Sândalo Bernardino no programa Roda Viva da TV Cultura. |
A conduta esquerdista não radical, moderada, de Angélico Bernardino - atualmente bispo emérito de Blumenau -, conciliou-se bem com o governo de João Goulart e concilia-se bem o governo petista. Meu trabalho de conclusão de curso, finalizado em 2004, debruçou-se sobre o clero católico progressista da região de Ribeirão Preto, SP. Acerca de Bernardino e de seu grupo eu havia escrito o que segue:
Em 1952, Dom Luis se tornou bispo de Ribeirão
Preto, SP. Dessa vez, Dom Luis Mousinho entrou em contato com uma região mais rica materialmente, mas também com péssimas
condições de trabalho e pobreza no campo. Ele pregava a atualização do clero e
a reflexão sobre os problemas socioeconômicos. Sob sua administração, e
orientado por ele, surgiu um grupo de sacerdotes progressistas em Ribeirão
Preto, no qual se destacaram: padre Celso Ibson de Sylos, padre Angélico
Sândalo Bernardino[1], Dom David Picão, frei Antonio Rolim, além de seminaristas
como Francisco de Assis Correia. Esse grupo se baseava na Doutrina Social da
Igreja, reestruturada pelo Papa João XXIII, e nas novas correntes progressistas
católicas da Europa, principalmente nas idéias de padre Lebret.
...
Padre Celso Ibson de Sylos foi convidado por Dom Mousinho a fazer um curso em Roma sobre
problemas sociais. Permaneceu na Europa de
agosto de 1960 a dezembro de 1961. No seu lugar, como diretor do jornal Diário de Notícias, ficou o padre
Angélico Bernardino, que comentou por meio do jornal os principais acontecimentos
da época, como por exemplo: vitória e renúncia de Jânio Quadros; e os impasses
relativos à posse de João Goulart. Como padre progressista - democrata,
antiliberal e contrario ao autoritarismo -, Bernardino defendeu a legalidade
contra um possível golpe militar que impediria a posse de João Goulart;
demonstrou um certo receio consoante com as vozes conservadoras com a figura do
novo presidente; e um medo em relação a uma possível guerra civil:
...opinam que Goulart, com razão ou não, devia
renunciar no cargo de vice-presidente. Deste modo, seria apaziguada a família
brasileira. Não teríamos revolução, nem mortes de jovens mais futurosos. O
Brasil poderá caminhar sem ódios e sem mortes. Um gesto patriótico de Goulart
diante da tragédia que poderá ter conseqüências imprevisíveis, reconduziria o
Brasil à paz.[1]
...Defendemos, com todas as forças da legalidade do
amor a Constituição mesmo que isto nos traga como conseqüência, o Presidente
João Goulart. Não importa o fruto. A nós a honra de nos batermos pela
justiça...[2]
...Acreditamos
até que, coadjuvado por um bom Conselho de Ministros, êsse homem medíocre sobre
o qual se fazem os comentários mais comprometedores, possa realizar um Governo.
É o que pedimos a Deus.[3]
Padre Celso retornou no início de 1962 e voltou a ser o diretor do Diário de Notícias. Teve uma postura
mais progressista que Angélico Bernardino. Nesse ano, criticou todos aqueles
que se opunham à “marcha da socialização do capital”. Contra uma manifestação
da Associação Comercial do Rio de Janeiro pedindo às “classes produtoras”
pequenos sacrifícios para ajudar a controlar a inflação, padre Celso respondeu:
Nós entendemos que a hora não é para pequenos sacrifícios,
não. O momento é para se partir para em definitivo ao encontro das soluções
apontadas claramente pela Doutrina Social Cristã. Não se pode mais omitir na
marcha da socialização tranqüila, progressiva e firme dos capitais. Urge a
democratização do capital. Urge a implantação da primazia do trabalho sobre o
capital.
Não nos parece que essa solução cristã custa apenas
“pequenos sacrifícios” às classes denominadas produtoras.[4]
...
A manchete do 31 de março era: “Minas se Levantou para um Golpe” e o
editorial escrito por padre Celso atacava esse levante. Nesse dia, padre Celso,
após a ousadia de elaborar um editorial tão subversivo para aqueles dias,
escondeu-se na casa de Antonio Duarte Nogueira. No dia seguinte, fugiu para o
Rio de Janeiro, escondendo-se sob a sombra de D. Helder Câmara.
O Golpe Militar de 1964, logo em seguida, afastou o tom esquerdista radical
do jornal. Nos dias seguintes, o Diário
de Notícias esteve em consonância com a política dos militares, a primeira
página do jornal do dia 9 de maio trazia uma exaltação ao golpe e à “Marcha da Família com Deus, pela Liberdade”
ocorrida em Ribeirão Preto:
A tarde de quarta feira colheu a população leal a uma grande demonstração de civismo dando
expansão ao vitorioso movimento das forças armadas garantidor da democracia
brasileira. A Marcha da Família com Deus, pela Liberdade reuniu multidão
calculada entre quarenta a cinqüenta mil pessoas, representadas por homens,
mulheres e crianças de todas os escalões sociais e profissionais. O desfile,
iniciado em diversos pontos da cidade atingiu o seu ponto culminante com a
concentração da grande massa humana na Esplanada da Praça XV de Novembro, onde
um comício com diversos oradores traduziu a manifestação de Ribeirão Preto na
sua fidelidade ao mesmo e na sua confiança no governo agora empenhado em levar
a tranqüilidade a todos os pontos do Brasil. Dessa, memorável jornada
patriótica é este expressivo flagrante, testemunha da presença de Ribeirão
preto à Marcha da Família com Deus, pela Liberdade.[1]
No dia 12 de maio, o Diário de
Notícias transmitia o julgamento de Papa Paulo VI em relação ao Golpe
ocorrido no Brasil. Apesar de pedir soluções para as desigualdades sociais do
Brasil, houve por parte do Papa Paulo VI, um apoio aos militares:
Os dirigentes do Brasil devem satisfazer às legitimas
exigências das classes trabalhadoras e empreender necessárias reformas, se
desejam que a Nação evite o perigo e a triste experiência do Comunismo. Estou
satisfeito por não ter o Brasil derramado sangue na revolução. Agora, chegou a
hora da ação. Os problemas do Brasil são gigantescos, e para eles deve-se
procurar solução com toda a urgência.[2]
Padre Celso ficou um mês em Petrópolis até que recebeu uma intimação por
meio de uma carta de D. Agnelo para que voltasse a Ribeirão Preto. Quando
voltou, D. Agnelo comunicou-o de que as autoridades decidiram que ele ficaria
preso no palácio episcopal ou no mosteiro. Padre Celso recusou-se e ficou preso
um mês no quartel. Frente às indagações da sociedade, alguns jornais de
Ribeirão Preto publicaram uma declaração sobre a prisão do padre feita pelo
“triunvirato” – aqueles que administraram a cidade após o golpe: o chefe
regional de polícia, o comandante da Policia Militar e o Coronel do Exercito da
Cidade. Os argumentos eram: organização da greve da indústria Matarazzo e
invasão de fazendas.[3]
Celso Ibson de Sylos disse ter recebido a visita de D. Agnelo na prisão.
Segundo Celso, D. Agnelo estava apavorado e angustiado, pois a prisão de padre
Celso havia dividido as “ovelhas”. Padre Celso, então, prometeu a ele, sair de
Ribeirão Preto quando solto.[4] De
fato, em 1981, na Catedral de Ribeirão Preto, D. Agnelo, em uma homilia, disse
que o período em que foi arcebispo dessa cidade foi o período mais sofrível de
sua vida.
Se em alguma
parte devo excusar-me é precisamente em Ribeirão Preto onde, permiti-me (sic) o
desabafo, também mais sofri em minha vida, apesar da sinceridade e disposição
de executar meu lema episcopal: “Opportet
Illum regnare”= “É necessário que Cristo reine”.[5]
Solto, padre Celso foi para o Rio de Janeiro, regressando para Ribeirão
Preto quando D. Agnelo se tornou arcebispo de São Paulo em 1965. No entanto, o
então arcebispo de Ribeirão Preto, D. Frei Felício César da Cunha Vasconcelos,
pediu para que padre Celso não fizesse militância política. Celso, então,
tentou buscar um espaço para fazer sua política nas arquidioceses do Salvador e
Goiânia, mas houve receio dos arcebispos. Nesse contexto, Celso Ibson de Sylos
pediu seu desligamento do Clero e se tornou vereador de Ribeirão Preto em 1967
pelo MDB.
Quanto a D. Agnelo, ele se tornou arcebispo de São Paulo em 1965. Em 1969
ele se tornou cardeal em Roma. O padre Angélico Sândalo Bernardino continuou em
Ribeirão Preto e fez militância política por meio do Diário de Notícias após a saída de D. Agnelo de Ribeirão Preto. A
organização dos trabalhadores rurais na região também continuou, não obstante a
opressão e a observação do governo militar. Celso Ibson de Sylos continuou a
ajudá-los no final da década de 60 e durante a década de 70 atuando como
assessor.
[1] Marcha da Família com Deus, pela Liberdade.
Diário de Notícias. 09 maio 1964. p. 1.
[2] O Papa nos Falou. Diário de Notícias. coluna Nosso Comentário. 12 maio 1964. p. 2.
[3]
Depoimento de Padre Celso Ibson de Sylos no dia 04.08.1990 ao Projeto “História
do Movimento Operário e Sindical”, desenvolvido pelo Museu Histórico e
Pedagógico de Batatais “Washington Luís”. Fita VHS.
[4] Ibidem.
[5]
ROSSI, D. Agnelo. Apud CORREIA, Padre Francisco de Assis de. História da Arquidiocese de Ribeirão Preto.
Franca: Editora Santa Rita, 1983. p. 70 – 71.
...
Contra o Clero Progressista, o conservador Dom Agnelo Rossi tentou
obstruir o trabalho de conscientização política feita pelo jornal Diário de Notícias, reestruturando esse
jornal. E após o Golpe, os militares prenderam padre Celso por seu envolvimento
com os trabalhadores, tanto rural quanto urbano.
No entanto, o engajamento político católico esquerdizante junto às
camadas populares continuou em Ribeirão Preto nos primeiros anos do regime
militar, não obstante a opressão e a observação dos militares. Angélico Sândalo
Bernardino, à frente do Diário de
Notícias, chamava a atenção para os problemas sociais e econômicos; e Celso
Ibson de Sylos, desligado do Clero Católico, tornou-se vereador em Ribeirão
Preto e assessor junto aos trabalhadores rurais organizados.
Padre Celso, assim como a JUC, situou-se no oposto da esquerda católica
transigente com a alta hierarquia da Igreja, de maioria conservadora. Dessa
forma, padre Celso atuou de forma radical, próximo à “atuação-limite” do padre colombiano
Camillo Torres, que pediu redução ao estado leigo, se juntou aos guerrilheiros,
se tornou procurado pela policia e foi morto em 1966.[1]
[1]
MENDES, Candido. Memento dos Vivos. A
Esquerda Católica no Brasil. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1966. p. 22.
[1]
BERNARDINO, Padre Angélico Sândalo. Opiniões.
Diário de Notícias. coluna Nosso
Comentário, 30 agos. 1961. p. 2.
[2]
BERNARDINO, Padre Angélico Sândalo. O
Povo quer Legalidade. Diário de
Notícias. coluna Nosso Comentário, 02 set. 1961. p. 2.
[3]
BERNARDINO, Padre Angélico Sândalo. Pausa
para Pensar. Diário de Notícias.
coluna Nosso Comentário, 05 set. 1961. p. 2.
[4] SYLOS, Padre Celso Ibson de. A Solução é a Socialização. Diário de Noticias. Coluna Nosso
Comentário. 05 out. 1962. p. 2.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Teologia da libertação e o primeiro governo Lula. Apontamentos prévios e críticas.
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| Foto emblemática da vitalidade da esperança no primeiro governo Lula. |
Uma flexibilização da Teologia da Libertação significa um retorno a elementos da Doutrina Social da Igreja proposta por João XXIII e de Paulo VI (o catolicismo progressista), ou seja, a marginalização dos aspectos mais conflitantes da luta de classes.
Movimentos, leigos e sacerdotes defensores da Teologia da Libertação formaram uma importante base para o Partido dos Trabalhadores nas décadas de 1980 e 1990. Com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder na esfera federal na figura de Luiz Inácio Lula da Silva, alguns dilemas se apresentaram aos defensores da Teologia da Libertação e ligados ao PT: alguns saíram do PT para formar o PSOL, como Plínio de Arruda Sampaio, em 2005. Tais dilemas estariam baseados no conflito Projeto de Poder/Projeto Social. Frei Betto afastou-se do governo Lula no final de 2004. Patrus Ananias, por outro lado, manteve-se inserido no primeiro governo Lula.
Frei Betto foi Acessor Especial da presidência em 2003 e 2004 e foi um
dos coordenadores do programa Fome Zero. O Fome Zero tinha como objetivo o
investimento em políticas públicas voltadas para os mais pobres com ênfase na
emancipação econômica e no fim da miséria. No final da década de 1960, Frei
Betto integrava um grupo de dominicanos que acobertavam integrantes da Ação
Libertadora Nacional (ALN). Devido à sua relação com um grupo de oposição ao
Regime Militar, Frei Betto estivera preso entre 1969 e 1973. Após a Anistia em
1979, Frei Betto tornou-se um dos porta-vozes da Teologia da Libertação e
publicou diversos livros, entre eles: Batismo
de fogo e Fidel e a religião. Em
2006, Frei Betto publicou o livro A mosca
azul, em que aponta a deturpação do Partido dos Trabalhadores no poder e a
ambição e cobiça de integrantes do PT. Segundo Frei Betto, Lula trocou um bom
programa por um programa ruim, ou seja, o Fome Zero pela Bolsa Família. Para
Betto, isto ocorreu devido ao projeto de poder do PT, que cedeu parte do
controle do programa Fome Zero aos prefeitos, o que fez com que aumentasse a
corrupção e, posteriormente, fez com que o programa fosse desmantelado.[1]
Patrus Ananias foi ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
desde 2004. Formou-se em Direito e foi um dos fundadores do Partido dos
Trabalhadores em Belo Horizonte, Minas Gerais. Foi prefeito de Belo Horizonte
entre 1993 e 1996. Em 2002 foi eleito deputado federal. Tem artigos publicados
em diversos jornais e revistas. Ananias manteve-se integrado ao PT mesmo após o
caso do Mensalão em 2005, quando petistas foram acusados de tráfico de
influência e de compra de votos de parlamentares. O Mensalão foi o estopim para
diversas dissidências de integrantes do PT, que passaram a compor o PSOL.
A existência de defensores da Teologia da Libertação integrados ao
primeiro governo Lula indica três questões: a relação entre religião e poder
temporal; entre intelectuais e política; entre marxismo e democracia.
Para a Teologia da Libertação não existe neutralidade, ou se está do lado
dos oprimidos ou dos opressores. Gutiérrez defende que o sacerdote católico
deve ser um intelectual orgânico dos grupos sociais da classe baixa. Patrus
Ananias é um intelectual orgânico de um partido político e se diz comprometido
com as bases populares. Daí a questão: como ele conciliou Teologia da
Libertação com as concessões e as alianças do PT com partidos ligados à
burguesia?
Elide Rugai Bastos e Walquíria Leão Rego apontam dois perigos que cercam
o pensamento crítico do intelectual: a apologia e a indiferença. Assim, teria
Patrus ficado cego por sua proximidade com o PT ou teria ele se comprometido
com um projeto de desenvolvimento social?
Por outro lado, a arena dos conflitos pela hegemonia de determinados
poderes simbólicos do Brasil entre 2003 e 2006 é distinto do cenário em que nasceu
a Teologia da Libertação.
Entre 2003 e 2006, no Brasil, a luta pelo poder simbólico é condicionada
em grande parte pelos jornais, internet e principalmente pela televisão. Neste
cenário marcado pelo poder simbólico midiatizado, intelectuais são medidos pela
popularidade na grande mídia. Nesse sentido, jornais e televisão controlam a
agenda do debate público e cria um público para estes debates.
A partir deste cenário midiatizado, o pensador italiano Salvatore Veca
defende que o intelectual não deve ser político, e se for, que não seja como um
intelectual. Por um lado, Veca quer livrar os intelectuais do poder da grande
mídia, por outro, defende o político profissional como modelo positivo de
atuação política. Nesse sentido, Patrus é primeiramente um político
profissional e Frei Betto é primeiramente um intelectual católico.
A partir de tipologias, Frei Betto seria um intelectual orgânico dos
grupos sociais pobres e explorados, um especialista no governo Lula em 2003 e
2004, um ideólogo do consenso e do dissenso fora do governo Lula, um
intelectual de vocação teórica e critica e não afeito à política profissional.
Com relação à Patrus Ananias, nossa hipótese é a de uma leitura flexível
da Teologia da Libertação. No entanto, uma flexibilização da Teologia da
Libertação significa um retorno a elementos da Doutrina Social da Igreja
proposta por João XXIII e de Paulo VI (o catolicismo progressista), ou seja, a
marginalização dos aspectos mais conflitantes da luta de classes. Ainda assim,
as tipologias da ciência política permitem apontar hipóteses: Patrus seria um
político profissional, cuja organicidade com as bases populares esgarçou-se e
cuja vocação teórica e crítica foi refreada. Por outro lado, seu papel como
ideólogo do consenso do governo petista é sobrepujada por seu papel de
especialista no governo Lula.
Acerca da famosa frase de Marx, a
religião é o ópio do povo, o sociólogo Michael Löwy, diz que esta frase não
cabe a Teologia da Libertação. Para Löwy, esta corrente do catolicismo é
revolucionária, anticapitalista radical e socialista.[1]
No entanto, seria o governo Lula uma espécie de revolução passiva –
manutenção de estruturas capitalistas por um lado e transformações estruturais
em benefício das classes mais baixas por outro?
Para o sociólogo Mauro Iasi – membro do PCB, aliado do PSOL e do PSTU – a
crise do comunismo internacional e a reorganização do sistema produtivo nas
décadas de 1980 e 1990 impingiu barreiras à organização, mobilização e à
consciência de classe dos trabalhadores. Em contrapartida, segundo Iasi, o PT
distanciou-se dos trabalhadores e aliou-se a setores e partidos da ordem
capitalista. A social democracia seria uma ilusão e a social democracia
petista, devido ao cenário produtivo e internacional, seria ainda inferior à
social democracia européia. Ainda segundo Iasi, O PT tornou-se um partido
representativo – reflexo – de uma pequena-burguesia conformada
significativamente por burocratas de sindicatos, dos fundos de pensão e do
próprio partido.[2]
Para Marcelo Badaró Mattos, um dos fundadores do PSOL, o PT marginalizou
o projeto socialista e enfocou as práticas eleitoreiras – alianças e concessões
com vistas a votos. Assim como Iasi, Mattos entende que o cenário internacional
enfraqueceu a organização e a mobilização da classe trabalhadora brasileira, um
dos motivos pelos quais o PT distanciou-se das bases populares em direção à
alianças com a burguesia e às concessões ao mercado.[3]
Se o PT transformou-se em um partido organicamente ligado a uma
pequena-burguesia, o que explicaria a permanência de um defensor da Teologia da
Libertação no partido e no governo de Lula? Se insinuarmos que Patrus apropriou
se dos anseios populares em seus discursos com vistas a manutenção do PT no
poder, então entraremos no terreno do populismo.
No entanto o populismo se cristalizou
como um conjunto de características políticas e sociais de um determinado
período histórico da América Latina, um período marcado pela crise das
oligarquias agrárias, substituição de importação, industrialização regional,
emergência das massas, guerra fria, nacionalismo e, segundo Werfor e Iani,
manipulação dos trabalhadores e demagogia por parte de uma elite que ocupou o
poder – outros pensadores, como Alberto Aggio, entendem que este período foi
marcado pela revolução passiva, ou seja, conservação e transformação.[4]
O contexto em que o PT ocupou o Estado entre 2003 e 2006 foi outro:
neoliberalismo, globalização e enfraquecimento da organização e mobilização dos
trabalhadores. O próprio PT não seria um partido da elite, mas um partido
reflexo de uma pequena burguesia. Iasi ainda argumenta que o PT é um partido
ligado a burocracia estatal. O próprio Patrus estava inserido nesta burocracia,
era um advogado trabalhista a serviço dos sindicatos. Por outro lado, Mattos
indica que o PT expandiu os horizontes “eleitoreiros” na direção dos
trabalhadores informais e dos mais miseráveis, principalmente por meio do
assistencialismo, o Bolsa Família.[5]
Nesse sentido, o lulo-petismo seria distinto do populismo, mas manteria a manipulação e a demagogia sobre os grupos
populares.
O fato de Patrus Ananias ter pertencido a burocracia sindical explicaria
sua permanência no PT ao contrário do sacerdote Frei Betto e de intelectuais
acadêmicos. Entretanto, o discurso de legitimação de Patrus acerca de sua
permanência no PT e no governo não seria sua ligação com a burocracia sindical,
mas baseada na Teologia da Libertação
e no catolicismo progressista de João XXIII e Paulo VI. Patrus não se silencia
frente às críticas ao programa social mais conhecido e polêmico do governo
Lula, o Bolsa Família. Patrus desenvolve um discurso legitimador do programa
apoiando-se em pensamentos esquerdistas ou esquerdizantes, principalmente em
correntes católicas que conformam o catolicismo progressista e a Teologia da
Libertação.
Neste cenário de política midiatizada e de desgaste da atuação pública do
intelectual, Bastos e Leão Rêgo apontam a existência de um grande fosso entre o
intelectual e o político profissional.[6] O
PSOL não deixa der ser uma tentativa de resolver este problema. O PSOL é um
partido formado significativamente por intelectuais acadêmicos guiados pela
teoria marxista e formado a partir de dissidentes do PT, um partido sem bases
teóricas fixas e claras e marcado pela política profissional a partir de meados
da década de 1990. Um dos dilemas do PSOL estaria em conciliar a teoria
marxista com a conquista de espaços simbólicos (dominada pela grande mídia de
natureza liberal) e sem fazer concessões e conchaves com o “inimigo”. Por um
lado, os intelectuais do PSOL ficam presos à teoria marxista, por outro, Patrus
Ananias prende-se à política profissional e descaracteriza a Teologia da
Libertação.
Para Domenico Losurdo, os intelectuais de esquerda foram
responsabilizados pelas atrocidades do comunismo soviético. Por outro lado,
segundo Losurdo, não há como o intelectual ser neutro politicamente e não há
como fugir das responsabilidades sociais. Para o pensador italiano, acreditar
no desenvolvimento espontâneo e natural das sociedades é uma ingenuidade e
também uma forma de legitimar o projeto social e intelectual do capitalismo.[7]
A Teologia da Libertação perdeu muito de sua força social precisamente
após a Queda do Muro de Berlim. Assim como os marxistas, os defensores da
Teologia da Libertação foram responsabilizados pelo fracasso do comunismo soviético.
As estratégias do PT a partir de meados da década de 1990 não deixam de ser uma
forma de fugir destas acusações e uma forma de conquistas de espaços de poder
simbólico.
Norberto Bobbio desenvolveu dois tipos de atuação intelectual no mundo
político: o ideólogo (construtores do consenso ou do dissenso) e o experto
(especialista, “conselheiro do príncipe ou daquele que deseja ser príncipe”)
que correspondem respectivamente ao princípio-fim e o conhecimento-meio. Não
obstante, um mesmo intelectual pode atuar como ideólogo em um determinado
momento e atuar como experto em outro.[8]
Frei Betto encaixa-se no tipo ideólogo, com exceção dos dois anos em que
foi assessor especial da presidência. Antes de 2003, Frei Betto foi um ideólogo
construtor do consenso esquerdista e do dissenso com relação à ditadura
militar, da sociedade capitalista e do neoliberalismo. Após 2004, ele continuou
a construir o consenso esquerdista e o dissenso com relação à sociedade
capitalista e o neoliberalismo, mas também construindo o dissenso com relação
ao governo petista – não obstante seus pequenos espaços de exercício do poder
simbólico. Em 2003 e 2004 ele atuou como um especialista em desenvolvimento
econômico e políticas de igualdade social para quem cabe as decisões, o
presidente e ministros. Os dilemas de Frei Betto estaria em conciliar seu papel
de especialista no governo e sua vocação de intelectual teórico e crítico.
Também neste sentido, Patrus Ananias insere-se
no primeiro governo Lula como um especialista em desenvolvimento social e
políticas de igualdade social, conciliando ao papel de especialista sua atuação
como político profissional. Sua atuação como construtor do consenso petista foi
secundaria, em parte também devido aos poucos espaços de exercício de poder
simbólico na grande mídia.
[1]
LÖWY, Michael. Marxismo e Teologia da
Libertação. São Paulo: Cortez Editora, 1991.
[2]
IASI, Mauro Luis. As metamorfoses da
consciência de classe. O PT entre a
negação e o consentimento. São Paulo: Expressão Popular, 2006.
[3]
MATTOS, Marcelo Badaró. Reorganizando em
meio ao refluxo. Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2009.
[4] AGGIO, Alberto. A emergência de massas na política
latino-americana e a teoria do populismo. In AGGIO, Alberto & LAHUERTA,
Milton (org.). Pensar o século XX.
Problemas políticos e história nacional na América Latina. São Paulo:
Editora UNESP, 2003.
[5]
MATTOS, Marcelo Badaró. Reorganizando em
meio ao refluxo. Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2009.
[6] BASTOS,
Elide Rugai & RÊGO, Walquíria Leão. (org.). Intelectuais e política. A moralidade do compromisso. São Paulo:
Editora Olha d’Água, 1999.
[7]
LOSURDO, Domenico. Os intelectuais e o conflito: responsabilidade e
consciência histórica. In BASTOS, Elide Rugai & RÊGO, Walquíria Leão.
(org.). Intelectuais e política. A
moralidade do compromisso. São Paulo: Editora Olha d’Água, 1999.
[8] BOBBIO, Norberto. Os
intelectuais e o poder. São Paulo: Editora UNESP, 1997.
[1]
BETTO, Frei. A mosca azul. Rio de
Janeiro: Editora Rocco, 2006.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
terça-feira, 16 de julho de 2013
domingo, 14 de julho de 2013
Algumas utopias segundo Ernst Bloch
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| Projeto Nova Harmonia de Robert Owen |
Algumas utopias segundo Ernst Bloch
No século XIX, surgiram novas e fortes utopias sociais
– pois os ideais da revolução burguesa tornaram-se demasiadamente abstratas. Já
em 1800, Fichte uniu o direito natural ao desejo de ordem do tipo Campanella no
texto O Estado comercial fechado. Segundo
Fichte, uma economia baseada na livre competição de interesses individuais
(conforme defendido por Adam Smith) traz como consequência o desemprego,
desigualdades sociais e crises econômicas.
A industrialização na Inglaterra, no início do século
XIX, criou uma grande camada social de proletários em condições de extrema
pobreza e de trabalhos degradantes. Robert Owen indicou a necessidade de
reformas na produção capitalista com vistas à diminuição da exploração sobre o
proletário. Indicou também que um trabalhador bem nutrido e mais satisfeito
produziria o dobro de trabalho e algo melhor do que um “escravo de galé”. No
entanto, Owen buscava primeiramente uma sociedade mais humana ao invés do
aperfeiçoamento da produção capitalista. Posteriormente, desenvolveu sua
utopia: aldeias baseadas na agricultura e no artesanato, onde haveria harmonia
e liberdade e não haveria propriedade privada. Também a partir da Inglaterra, Fourier,
antes de Marx, afirmou que a pobreza é correlata à opulência capitalista. A
utopia de Charles Fourier consistia em comunidades harmônicas baseadas no amor
cristão ao semelhante – apesar de ter sido um grande crítico da “civilização” cristã
burguesa.
Owen e Fourier desenvolveram utopias bucólicas, de
liberdade e federativas. Os franceses Étienne Cabet e Saint-Simon desenvolveram
utopias industriais, rigorosamente ordenadas e centralistas. Na Icária de
Cabet, também se trabalha menos e tudo é redigo pela técnica e pela ciência,
com vistas a uma economia planificada. Na utopia de Saint-Simon os juízes e os
governantes são os engenheiros, os tecnocratas e os cientistas.
Entre as utopias pré-marxistas, também se encontrava o
anarquismo. Contra a coação estatal e as leis, Stirner defendia o
hiper-individualismo e Prodhoun desejava uma sociedade de pequenos
proprietários totalmente autônomos cujas relações econômicas seriam baseadas em contratos. Para
Bakunin , o Estado é o causador de todos os males.
Por sua vez, o proletário Weitling não acreditava mais
em medidas socialistas “com ajuda” da classe dominante. Seu mundo utópico era
bastante ordenado e construído e mantido a partir do amor fraternal e cristão.
As utopias sociais pré-marxistas de Owen, Fourier,
Cabet, Saint-Simon e de Weitling descrevem o mundo utópico de forma bastante
ilustrativa, mas os meios de realizar estas utopias foram descritas de forma
precária – em contraste com Marx, que detalhou os meios de superar o
capitalismo e pouco revelou sobre a sociedade sem classes. Por outro lado, os
anarquistas buscavam a utopia de forma imediata e irracional.
Texto retirado do livro Utopias esquecidas
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